- Texto baseado no documentário exibido no dia 2 de abril de 2008 no Centro Cultural CEEE Érico Veríssimo -
“Regresé a Montevideo en octubre de 1985. La primera cosa que hice fue ir hasta la Avenida 18 de julio esquina con la Calle Rio Branco y la estaba el, aparentemente intacto.”
Aurélio desceu do táxi e deparou-se com o edifício do extinto diário “El Popular”. Caminhou vagarosamente, não conseguia correr. Aos poucos se aproximou da construção e tocou as paredes daquele lugar onde admitiu ter vivido os mais belos dias da sua vida. Com os olhos inundados por lágrimas e ainda passando as mãos no edifício – como não quem não acreditasse que ele ainda estivesse ali, aparentemente intacto – falou em voz baixa:
- Nosotros tenemos un secreto.
Era um momento único, depois de nove anos longe do país que adotará como lar – Gonzáles é marroquino -, reencontrava-se com o seu passado, mas mais ainda do que memórias particulares, Aurélio tinha algo que seria de extrema importância para o povo uruguaio.
Após o golpe militar ter sido anunciado e concretizado no Uruguai, todos os jornais foram fechados e tiveram seus arquivos confiscados pelos militares. E Aurélio González sabia que as suas fotografias também seriam recolhidas e destruídas. Então, na madrugada do dia 30 de novembro de 1973, às duas horas da manhã, o fotógrafo escondeu cerca de 50 mil fotogramas, referentes aos 16 anos de trabalho no jornal, em seis ou sete latas de metal em um vão de isolamento acústico na garagem do prédio onde funcionava o jornal em que trabalhava. Tinha certeza, era um local seguro. Jamais alguém poderia imaginar que alguém esconderia alguma coisa ali.
“No fue algo para mi. Hice esto para el pueblo uruguayo. Una forma de mostrar para todos que el pueblo lucho contra el gobierno militar. Contra la represión y la censura.”
De fato, ninguém os encontrou. No dia seguinte, os militares invadiram o prédio do “El Popular”, armados com fuzis e bombas de gás, e detiveram todos os jornalistas e levaram todos os arquivos do jornal. Fecharam o prédio e declararam a atividade dos profissionais ilegal. Aurélio Gonzáles foi preso. Levado pela “Republicana” – polícia especial uruguaia conhecida pela sua imponência – e foi interrogado a respeito dos seus arquivos.
“Yo dice que no sabia de nada. Y cuando usted no quieres dicer, y las cosas están solamente dentro de tu cabeza, ninguna persona puede hacer que o diga. Tiene que dicer que no sabe y hacer creer que no sabes mismo. Hasta tu mismo creer que no sabe de nada.”
Foi solto logo em seguida, permaneceu no Uruguai por mais três anos até exilar-se no México, de onde só retornou nove anos depois para reencontrar seu material escondido na parede do prédio na Avenida 18 de Julio esquina com a Rua Rio Branco.
Aurélio encontrou uma forma de entrar na garagem do prédio e percebeu que naquele lugar havia tido algumas mudanças. O prédio passara por duas reformas. Mesmo assim, conseguiu entrar no vão que havia guardado seus materiais. Engatinhou e chegou até o esconderijo, no entanto, o inesperado bateu de frente com Aurélio Gonzalez. Os negativos haviam sumido. “No pudría creer, los fotogramas habían desaparecido. Me caí al piso y me puso a llorar como un niño.”
Depois disso, o fotógrafo comentou o ocorrido com alguns amigos e colegas de trabalho. Muitos boatos sobre negativos perdidos que foram encontrados levaram González à esperança de encontrar a sua obra de 16 anos de trabalho no “El Popular” – entre 1957 e 1973. “Algunas personas decían que no había más esperanza de encontrar los fotogramas, pero yo jamás hay perdido. Y se los demás han perdido, no pudría perder por ellos.”
Do boca-a-boca que se formou em cima do ocorrido. Chegou aos ouvidos de um conhecido de González que conhecia o dono da garagem que na época funcionava no prédio. Aurélio partiu em busca do garoto Quique que tinha alguns negativos que, de fato, eram do fotógrafo. No entanto, eram apenas 300 ou 400 negativos. O garoto sabia onde estavam os demais. Ele havia os encontrado, mas não havia dito a ninguém com medo de ser repreendido e perder o material.
Então em janeiro de 2006, 30 anos após esconder o material, Aurélio González e alguns amigos fizeram uma operação para entrar no prédio durante a noite e recupera-lo. Realizaram a operação com sucesso, utilizando tubos de pvc com imãs no fundo, assim recuperando todos os negativos sem danificá-los. Oxidadas, as latas impediram que o ar quente e, principalmente, úmido do ambiente perecesse o material. “Cuando escuché el ruido de el metal en los tubos, tuve la certeza de que eran las latas. ¡Era el ruido de lata, sí! – ¡Me quedé muy contento. Eran las latas, sí! – completou, muito emocionado, González.
Guilherme Guterres
Aurélio González recuperou cerca de 48.188 negativos de 35mm operados no período em que trabalho no jornal “El Popular” – década de 60 e 70 –, e que estão sendo digitalizados pelo Centro Municipal de Fotografia de Montevideo. Nascido no Marrocos, em 1931 – 77 anos -, militante de esquerda participou de grupos antifranquistas e círculos ligados ao Partido Comunista. Hoje, ele participa na recuperação do material e ainda trabalha com fotografia.